domingo

Gósto de Chorar com Gôsto

I

O título do post - embora com evidentes erros ortográficos - diz o que me passa na alma precisamente neste momento. Vanessa Fernandes acaba de vencer a etapa portuguesa da Taça do Mundo de Triatlo. Pavilhão Atlântico com milhares a aplaudir em euforia a atleta portuguesa, depois de no percurso desenhado no Parque das Nações outros tantos puxaram pela nossa campeã. Simplesmente arrepiante. Em bom, obviamente. Sei bem que em Portugal o público responde só depois de um desportista começar a ganhar e não antes. E foi só por isso que o recinto encheu e não pelo amor ao Triatlo. Em Portugal não se gosta de desporto; gosta-se de ganhar, o que é pena... mas, ainda assim, foi bonito ver o que se passou no Pavilhão Atlântico há pouquinho. Eu, em casa, senti tudo como se lá estivesse. Se calhar mais do que se lá tivesse estado. Chorei ao ver a entrada da Vanessa no pavilhão para os metros finais da prova, ao ouvir o "bruááá" da bancada e o estrondoso aplauso final, ao ver a Vanessa cortar a meta com a bandeira nas mãos... É-me uma coisa espontânea, chorar nestes momentos. Chorar por Portugal, chorar pelo reconhecimento de quem merece, chorar por gosto. Gosto de chorar com gosto (os erros do título servem apenas e só para que se perceba o diferente som dos dois fonemas - está explicado agora). Aconteceu mesmo há bocadinho. E foi bom. É sempre bom. Eu gósto. Com gôsto. Chorar.

II

Dovic é o apelido de uma família bósnia cuja vida se cruzou com a minha em 1993 ou 1994. Aos 17-18 anos, como estreante no mundo da comunicação em que ninguém acreditava, decidi fazer uma coisa que raramente se fazia pouco nas rádios portuguesas e que, de certeza, não se fazia mesmo nas rádios locais, muito menos naquela onde trabalhava. Pedi que me dessem uma hora na emissão para trazer a estúdio essa família que tinha sido acolhida na vila, provinda da dilacerada Bósnia, ainda em pé de guerra. Foi uma luta imensa. A hora que me deram foi - à falta de palavra melhor - merdosa, a pior que me podiam ter dado (uma hora em que a audiência era inexistente, a hora do jantar), tal era a descrença no que eu tinha planeado. E isso era uma hora de entrevista com a passagem de testemunhos das pessoas que tinham alterado a sua vida para receber e ajudar a famíla Dovic. Há 13 anos foi, portanto, uma "pedrada no charco" o que hoje se faz curriqueiramente na Rádio Club ou na TSF. Enfim... coisas. Nessa noite, tive em estúdio Fuad, Vesna, Dragana e Sabina Dovic que agradeciam toda a ajuda que lhe tinham dado e prestado mas mostravam tristeza por não conseguirem "merecer" essa ajuda, trabalhar para comer, como sempre o tinham feito até à guerra ter interrompido a vida deles numa emissão que penso e lamento praticamente ninguém ouviu. Hoje, acabo de ver uma reportagem que me mostra que a mesma família Dovic é um caso de sucesso de integração dos refugiados bósnios em Portugal. Vesna tem finalmente um emprego como arquitecta (função que desempenhava na terra natal) e já tem a filha Sabina a seguir-lhe os passos, acabado que está o curso de Arquitectura. Dragana, a filha mais velha, é enfermeira em Lisboa e parece ser muito feliz. Já Fuad, o pai, optou por não aceitar um emprego como engenheiro químico (a sua formação) para estar junto da família, que hoje - à excepção de Dragana - vive na cidade de Coimbra. A lágrima surgiu, não chegou a cair pelo rosto, mas surgiu. Por eles. Pelo sucesso deles. Pela felicidade que se sente nas faces dos elementos da família, praticamente 15 anos depois. No fundo, 15 anos depois, também eu alcancei aquilo por que lutava nessa altura. Eles acreditaram. Eu acreditei. Felizes eles. Feliz eu, pelo menos, por agora.

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